Sempre sonhei com um show do Nenhum de Nós só pra mim. Aquela coisa só eu e os cinco caras da banda. No dia 13 de abril meu sonho foi realizado. É claro que não contratei um show deles ou coisa que o valha. Mas a sensação foi quase a mesma. É que na sexta-feira, a segunda noite da temporada de shows do Contos de Água e Fogo no Teatro do CIEE, assisti o show sozinha do mezanino. Lá de cima, parecia que eu estava vendo a passagem de som. Naquele momento, só existia eu e o Nenhum de Nós em Porto Alegre. Foi uma coisa indescritível. Poucas pessoas entenderam o porquê de fazer isso. Quando cheguei pra falar com eles depois da apresentação, todos perguntaram “Era tu aquela criatura solitária lá em cima?”. O Veco foi o único que captou a ideia. “Fiquei com muita inveja de ti. Queria muito poder assistir uma banda que eu gosto do jeito que tu nos assistiu hoje”. Ele entendeu. O Carlos também. Não foi só o fato de eu assistir um show do Nenhum lá de cima. Mas AQUELE show. Na boa, os caras acertaram na mosca, repertório, arranjos, tudo.
A temporada teve quatro shows. Não conseui ir no primeiro, mas fui nos outros três. Na sexta, fui na primeira fila do mezanino, no sábado, na primeira fila da platéia alta, e no domingo, na primeira fila da platéia baixa. Gosto dessa mudança de perspectiva, de observar coisas diferentes a cada noite. Mas não importa o lugar em que esteja, quando soa o terceiro sinal, as luzes se apagam e começa a trilha de abertura, a sensação é sempre a mesma: o coração bate rápido, a respiração fica superficial, dá até uma certa vertigem. O pensamento também é sempre o mesmo: meu Deus, obrigada por ter colocado essa banda no meu caminho.
Abrem-se as cortinas e ali estão eles: Thedy Corrêa no vocal, violão e harmônica, Veco Marques nas guitarras, violão e banjo, Carlos Stein nas guitarras, violão e slide guitar, João Vicenti nos teclados, acordeon, violão e vocais, Sady Homrich na bateria e percussão, e Estevão Camargo, musico convidado, no baixo e vocais. Atrás, um painél com os desenhos que ilustram o disco: sol, pássaros e vento. Começa o show. No palco escuro, só o Sady recebe um foco de luz. Ele faz uma introdução e a banda toca Corrente. No disco, ela não é uma das minhas preferidas, mas curti muito ao vivo. Depois veio Último Beijo, que eles tocaram pela primeira vez na temporada do Click, no Theatro São Pedro, em 2008. A guitarra do Carlão em Eu Não Entendo ficou muito bacana, usando um efeito do pedal. Mistério Profundo é uma do novo disco que eu não gosto, e o show não mudou minha impressão.
Aí veio uma sequencia impecável: Polaroid, Primavera no Coração e Julho de 83. Polaroid, uma bela versão do Nenhum para a canção de Fito Páez, é uma das minhas (e de muitos fãs) músicas preferidas. Nunca a tinha visto ao vivo, desde 2005, quando comecei a acompanhar a banda. Primavera no Coração, pra mim, é a música mais perfeita do Nenhum de Nós. Lágrimas escorreram dos meus olhos na primeira vez que ouvi essa canção e no show de domingo também. Pensei em como aquela banda que estava em cima do palco havia mudado minha vida. Em Julho de 83, que me lembra muito a minha história com o Nenhum, tive um pensamento parecido. Fiquei pensando em onde eu estaria naquela noite se eu não tivesse conhecido a banda quase seis anos atrás. E percebi, também no meio de lágrimas, que não havia nenhum lugar melhor no mundo para eu estar naquele momento do que nesse show.
Em seguida veio Exatamente Igual. Apenas o Veco, o Thedy e o João ficaram no palco. A luz baixa, a levadinha da guitarra estilo Blackbird, a voz do Thedy, o João no backing vocal e o som programado da orquestra foram os ingredientes desse que foi um dos momentos mais bonitos do show. Em Pequena, uma das melhores músicas no disco, o Veco empunhou o banjo e o Sady saiu do esconderijo atrás da bateria para tocar um instrumento que, segundo ele, chama-se Tanajura, uma espécie de cajón no formato de um violão. Gosto demais dessa música do disco, mas acho que a banda não se encontrou tocando ela ao vivo. Depois, veio Das Coisas Que Eu Entendo.
Como os arranjos de algumas canções estavam mudados, às vezes eu demorava um pouco para descobrir qual música viria em seguida. Paz e Amor foi uma delas. Os vocais do João e do Estevão fizeram toda a diferença. Essa era uma canção que nós, eu e o pessoal que acompanha a banda mais seguido, já estávamos cansados. Agora isso mudou, não vejo a hora de ir em um show e ouvir essa música. O produtor do disco, Ray Z, participou da apresentação de sexta. Com ele no palco, a banda tocou Segredos, do Frejat, e Outono Outubro, que ficou com três guitarras e muito rock’n'roll. E então a banda puxou novamente nosso tapete. Vou Deixar Que Você Se Vá mudou bastante ao mesmo tempo não mudou muito. É difícil de explicar, mas ela ficou fenomenal, muito mais alegre do que já é. A gaita do João, novamente, deu um toque especial nessa polka.
Água e Fogo, no domingo, teve a participação de um dos músicos que mais gosto: Duca Leindecker. Todo o Contos de Água e Fogo foi gravado em seu estúdio, o Submarino Amarelo, e o Duca fez participação nessa música. A voz desse cara é algo de outro mundo. O legal é que no show ele se posicionou entre o Veco e o Thedy. Então, se eu olhasse um pouco mais para a esquerda, via meus dois guitarristas preferidos, e se olhasse mais para a direita, via meus dois vocalistas preferidos. Aí veio Amanhã ou Depois, outra canção que teve algumas mudanças, principalmente nos vocais. Novamente, João e Estevão mataram a pau. A última música antes do bis foi Você Vai Lembrar de Mim, que não me agrada muito.
O show voltou com Melhor e Diferente, a música que menos gosto do novo disco (na verdade, a música até que é ok, a letra é que não me convence). No sábado, uma surpresa: A pedido da própria banda, como brincou Thedy, eles tocaram Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, clássico do Clube da Esquina que virou sucesso também com o Nenhum de Nós. No domingo, o Duca voltou ao palco para tocar Pinhal. Para fechar a apreentação, os clássicos dos clássicos: Camila, Camila e O Astronauta de Mármore.
Além das músicas, outra coisa fez esses shows o que eles foram: as luzes de André Domingues, como sempre, em perfeita sintonia com as canções. Só pra não dizerem que eu sou fã e minha opinião não é, digamos, objetiva (o que, confesso, a maioria das vezes, apesar do meu esforço, não o é), aqui vai uma crítica. Faltaram três músicas no repertório: Um Pouquinho, Tu Vicio e 3000 Léguas. No mais, foi uma temporada de shows do Nenhum pra fã nenhum (hã, gostaram do trocadilho?) botar defeito.