No dia 27 de outubro começou temporada 2009-10 da NBA, o campeonato americano de basquete profissional. Duas semanas depois, no dia 9 de novembro, começou também a temporada da NCAA, o campeonato americano de basquete universitário. A maior parte dos astros da National Basketball Association (NBA) foi recrutada nas universidades (colleges), ou, antes disso, nas escolas de ensino médio (high-schools).
Não existe dúvida de que a cultura esportiva nos Estados Unidos é completamente diferente da brasileira. Carlos Thunm, vice-presidente da Federação Gaúcha de Basquete, jogou por quatro anos nos EUA em duas colleges diferentes e conta que o esporte lá é todo concentrado na escola e na universidade, e não em escolinhas de iniciação, como no Brasil. Antes de jogar nos times universitários, geralmente os atletas participam das competições colegiais. Cada esporte tem sua temporada definida, o que permite que o aluno participe de campeonatos em mais de uma modalidade, basquete no inverno e baseball na primavera, por exemplo. Dessa maneira, o atleta tem a possibilidade de adquirir experiência em vários esportes, e, na medida em que vai evoluindo, escolhe o que mais tem afinidade para continuar treinando.
As universidades acompanham os jogos e as estatísticas da high-school para saber quais são os melhores jogadores. Se algum atleta chamou a atenção, a comissão técnica (que é formada por, no mínimo, um técnico e três assistentes) vai assistir à sua partida, conversa com ele e sua família para tentar recrutá-lo. No caso de jogadores estrangeiros, a comissão técnica viaja pelo mundo na pós-temporada para observar os novos talentos, geralmente indicados por seus conterrâneos que possuem contatos nos EUA. Para jogar no esporte universitário, a idade máxima é de 24 anos. Não é recomendado que o atleta já tenha tido experiência na categoria profissional. Mesmo que não tenha recebido nenhum pagamento para jogar, a cada partida profissional que o atleta participa, ele é vetado de um jogo do universitário, explica Guilherme da Luz, gaúcho que jogou por quatro anos na Furman University, na Carolina do Sul. O recrutamento de novos jogadores é feito antes do começo da temporada, e durante esse período, o atleta tem o direito de visitar até três universidades. Na visita, que dura no máximo 48 horas, o aluno tem tudo pago. Ele conhece o campus, alguns estudantes e todas as pessoas envolvidas com o esporte. Contudo, a universidade não pode oferecer absolutamente nada que contenha o seu logotipo. Caso ela o faça, corre o risco de não disputar o campeonato na temporada seguinte.
O órgão regulador que define essa penalidade, bem como todas as outras regras do esporte universitário americano é a NCAA (National Collegiate Athletic Association). Essa Associação organiza 88 campeonatos, dentro de 23 diferentes modalidades, com a participação de 54.000 alunos-atletas. Somente na primeira divisão do basquete, são 350 times, divididos em 32 conferências (regiões). A história da NCAA começa em 1905, depois de uma temporada extremamente violenta no futebol americano.
O presidente Theodore Roosevelt convocou duas reuniões na Casa Branca com representantes de faculdades para implementar mudanças no esporte universitário. Em dezembro daquele ano, foi criada a Intercollegiate Athletic Association of the United States (IAAUS), com 62 membros, que mudou o nome para NCAA em 1910. A entidade começou apenas como um grupo para discutir e criar regras, mas, depois de 1921, passou também a organizar competições nacionais. A partir de 1973, cada modalidade foi separada em 3 divisões, sendo que na 1ª Divisão jogam os times das maiores universidades, com grande quantidade de alunos, que têm mais programas esportivos e que forma mais atletas. O primeiro campeonato da NCAA de basquete masculino foi em 1939, e desde lá, a Universidade da Califórnia, mais conhecida como UCLA, conquistou o título 11 vezes, sendo a maior vencedora da história do basquete universitário dos Estados Unidos. Só em 1982 a Associação criou o campeonato feminino de basquete. A Universidade do Tennessee é a grande campeã, com 8 títulos.
O objetivo maior da NCAA não é formar jogadores profissionais, mas dar a oportunidade para que os atletas se formem. O conceito “aluno-atleta” é tão importante que há punições para os times dos alunos que não vão nas aulas ou têm notas baixas. O “aluno” vem antes do “atleta”, eles dizem. A NCAA proíbe que os jogadores que estão mal nos estudos participem dos jogos ou dos treinos. Caso a Associação flagre alguém infringindo essa regra, o time é suspenso da temporada. Guilherme da Luz conta que os jogadores do primeiro ano precisam comparecer no study hall, a sala de estudos, duas vezes por semana, e que todos os times têm tutores, que auxiliam os atletas no conteúdo das aulas.
Todo esse sistema se reflete em números: no basquete masculino, apenas 1,2% dos jogadores se tornam profissionais. No feminino, a taxa é ainda menor, 1%. Enquanto isso, 79% dos atletas conquistam seus diplomas ao final do programa. Walter Roese, técnico da seleção brasileira universitária de basquete masculino e assistente técnico do time masculino da Universidade do Nebrasca, afirma que “a grande vantagem do basquete universitário americano é que quando o atleta acaba de jogar após quatro anos, ele tem uma formação acadêmica. É verdade que muitos deles não se formam, mas pelo menos tiveram a oportunidade de fazê-lo.” Roese ainda complementa que “mesmo que o atleta fique de quatro a cinco anos sem receber dinheiro, ele recebeu algo (diploma) que vai dar o que comer para ele e sua família para o resto da vida.”
O americano Lyndon Yoder acredita que, além de oferecer a possibilidade de uma graduação, o esporte universitário ensina bons hábitos aos jogadores. Disciplina individual, trabalho duro e trabalho em equipe, por exemplo, são qualidades que “se tornam parte do atleta para sempre”. Para Yoder, o esporte “também ensina aos atletas que as suas decisões não afetarão somente eles, mas também outras pessoas. Se um deles não dá o seu melhor em um jogo, isso abala o resto do time.”
Carlos Thunm constata que existe um envolvimento muito grande da cidade com a universidade. “São os alunos que vão nos jogos, os professores, a comunidade como um todo”. Apesar de acompanhar de perto os jogos e sempre querer a vitória, nem a direção, nem a torcida e nem mesmo a imprensa pressionam os jogadores. Todos têm a consciência de que os atletas estão ali para melhorar seu jogo, e que muitos deles ainda não estão na sua melhor forma. O sistema do esporte norte-americano é baseado no longo prazo. Guilherme da Luz conta que, às vezes, a universidade aposta em um jogador que ainda não está “pronto”. Ou ele precisa melhorar seu condicionamento e sua força, ou não começará como titular, ou ainda não está adaptado com o novo ambiente. Nesses casos, o jogador participa dos treinos, mas não compete com a equipe. Esse atleta, chamado de redshirt, prefere não participar dos jogos durante um ano e se preparar para as quatro temporadas seguintes. Essa é a única maneira de um jogador manter sua bolsa de estudos por cinco anos.
Os responsáveis pela captação de verbas para a manutenção dos programas esportivos são as próprias universidades. Grande parte do dinheiro vem dos contratos televisivos para a transmissão dos jogos, dos patrocinadores, de eventos para arrecadação de fundos e de doações de ex-alunos que mantém um forte vinculo com a instituição. As bolsas de estudo, oferecidas apenas nas divisões I e II, contemplam as mensalidades do curso que o atleta escolhe, todos os livros necessários, moradia e alimentação. Na 2ª divisão, geralmente os atletas recebem apenas uma bolsa parcial. Em 2008, uma bolsa completa para um atleta local em uma universidade pública custava US$14 mil por mês. Para um atleta de fora do estado, esse valor subia para US$24 mil. Em uma universidade particular, o custo de uma bolsa para um atleta local era de US$32 mil. No total, as universidades gastam mais de US$1,8 bilhão por ano, somente em bolsas de estudo. Além disso, o atleta americano que comprovar dificuldades financeiras recebe um auxílio do governo ou da própria NCAA. Dessa forma, o aluno não precisa largar o esporte para trabalhar. “O ciclo é o seguinte: uma universidade tradicional tem a tendência de atrair os melhores atletas, e assim estará sempre no topo. Toda essa exposição acaba atraindo alunos para a universidade, que optam por uma instituição que oferece um bom curso e um time vencedor”, explica Carlos Thunm.
Assim como no esporte colegial, no universitário cada modalidade tem sua temporada definida. Isso para que o atleta possa se dedicar aos estudos e para que o calendário de um esporte não atrapalhe o outro. O vôlei, por exemplo, usa o mesmo ginásio que o basquete. Para que cada um possa usar o espaço pelo tempo que achar necessário, os jogos de basquete masculino e feminino acontecem durante o inverno, os de vôlei masculino são na primavera e os de vôlei feminino ocorrem no outono. Os treinos também têm épocas agendadas pela NCAA. O semestre começa no final de agosto, mas os times de basquete só podem iniciar o treinamento no fim de outubro. O primeiro treino do ano é chamado de Midnight Madness. Ele começa à meia-noite do sábado mais próximo do dia 15 de outubro (em 2009, foi no dia 17), e é mais uma apresentação para a torcida, que se reúne no ginásio para assistir aos espetáculos de enterradas, acompanhados de muita música e líderes de torcida. O Midnight Madness é, na verdade, um grande evento de promoção da equipe.
Como a NCAA proíbe que os times treinem como grupo antes dessa data, eles praticam o esporte com condições especiais. Individualmente, os atletas continuam fazendo a preparação física na academia e treinando os fundamentos, como o arremesso, na quadra. No treino coletivo, podem jogar 5 contra 5, mas sem a presença da comissão técnica. Qualquer instrução que o treinador queira passar para os jogadores deve ser comunicada para o capitão antes do treino. Outra alternativa que as equipes encontram para poder treinar é não colocar o time completo, jogar 4 contra 4, por exemplo, com a finalidade de praticar uma jogada. Depois do Midnight Madness, os times têm apenas três semanas para treinar com o elenco completo. Nesse período, os atletas treinam todos os dias, geralmente duas vezes. A parte física, feita com o acompanhamento de um preparador, é feita antes da aula, por volta das 6h30 às 8h30, e depois da aula acontece o treino principal, das 15h30 às 18h. Durante a pré-temporada, as equipes podem participar de dois jogos amistosos, para exibição.
Depois disso, a temporada se divide em duas fases: na primeira, entre o meio de novembro e o início de janeiro, as equipes jogam partidas “semi-amistosas” contra times de outras conferências e até de outras divisões. Os resultados desses jogos contabilizam pontos no ranking da NCAA. Na segunda fase da temporada, que acontece do início de janeiro ao fim de fevereiro, as equipes jogam dentro da própria conferência, no Conference Tournament. Os jogos são de ida e volta, o 1º colocado no ranking joga contra o último, o 2º com o penúltimo e assim por diante. O campeão de cada uma das 32 conferências vai para o campeonato nacional, o NCAA Tournament. Além dos vencedores das conferências, outras 32 equipes também vão para o nacional. Geralmente as principais conferências, como a ACC, da Costa do Atlântico, tem mais 2 vagas para os times que não foram campeões, mas ficaram bem colocadas no ranking da primeira fase. As conferências menos importantes só classificam para a fase nacional o seu time campeão.
No NCAA Tournament, as 64 equipes são divididas em quatro regiões, Meio-Oeste, Oeste, Leste e Sul, e também jogam no mata-mata. Na temporada que está começando, o campeonato nacional masculino começa no dia 16 de março, e o feminino no dia 20. Os campeões de cada região se classificam para as semi-finais, o Final Four. E então, os vencedores vão para a final, chamada de NCAA Championship. O Final Four masculino de 2009-10 irá acontecer em Indianápolis, entre os dias 3 e 5 de abril. O feminino será em San Antonio, do dia 4 ao dia 6. Além do NCAA Championship, há um outro torneio que dá um título nacional para a universidade campeã, durante a pós-temporada. O NIT, National Invitation Tournament, pode ser comparado com a Copa Sul-Americana do futebol, enquanto o Champioship seria a Taça Libertadores.
Ao final da temporada da NCAA, os melhores jogadores são recrutados pelos times da NBA através do draft. O player draft é um acontecimento obrigatório em todas as Major League Sports, como a NBA e as ligas profissionais de futebol americano, de hockey e de baseball. É no draft que os times profissionais escolhem os jogadores universitários que querem contratar. O pior time da temporada da NBA começa escolhendo um atleta, depois é a vez do segundo pior time, e assim acontece até chegar no campeão. Então começa o segundo round, em que todo o processo se repete. “Essa tentativa de manter o equilíbrio entre as equipes é pensado para manter disputas com alto nível de competitividade e para que os grandes jogadores sejam bem distribuídos nos times”, avalia Carlos Fabre, mestre em Educação Física. Para essa temporada, Eduardo Agra, comentarista da ESPN, acredita que Blake Griffin, do Los Angeles Clippers, Ty Lawson, do Denver Nuggets, De Juan Blair, do San Antonio Spurs e James Harden, do Oklahoma City Thunder, serão os destaques entre os novatos da NBA.
Contudo, nem tudo são flores nas universidades menores, principalmente para as da 3ª divisão. Muitas delas têm dificuldades para manter os programas esportivos. Não é raro uma modalidade mais popular, que atraia mais recursos, sustentar a estrutura de outros esportes. Mas, às vezes, a universidade se vê obrigada a fechar um determinado esporte por falta de condições. Isso porque, além do time, o programa esportivo engloba também a banda, as líderes de torcida e o mascote, que, muitas vezes, também recebem bolsas parciais. Além desse problema, há um outro aspecto que gera polêmica. Por serem considerados amadores, os atletas não podem receber nenhum dinheiro em função de sua prática esportiva. O grande dilema atual da NCAA são os jogos de videogame criados com base nos seus campeonatos. As empresas usam os nomes dos jogadores e seus personagens virtuais. As empresas faturam muito em cima disso, mas os alunos não podem ganhar nada. Devido a esse fato, alguns atletas entraram na justiça contra a NCAA pedindo que o direito de imagem seja cumprido.
Apesar disso, Carlos Thunm “não tem o que reclamar” do sistema esportivo universitário americano. “É muito organizado. Há todo um planejamento. Agora eles estão começando uma temporada, mas já têm uma ideia de contra quem eles vão jogar na temporada que vem”, conclui. Guilherme da Luz concorda com a opinião de Thunm: “O basquete universitário nos Estados Unidos é mais profissionalizado do que o basquete profissional no Brasil”.
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