Thedy Corrêa escreveu uma vez em seu blog que Brasil Afora, novo CD dos Paralamas do Sucesso, “é um disco imensamente FELIZ!” Essa afirmação vale também para o show de lançamento do álbum, que aconteceu dia 10 de outubro no Teatro do Bourbon Country. A apresentação dos cariocas reafirmou o que já se sabe desde o começo dos anos 80: os Paralamas são uma das maiores bandas do rock brasileiro.
Ao contrário do que se espera de uma turnê de lançamento, o show não focou muito as canções do novo CD. Das 26 músicas no set list, apenas 5 são de Brasil Afora. Mas todas as outras canções do repertório tinham o mesmo astral que paira no disco. Essa atmosfera contagiou a platéia e os músicos. Hebert Vianna, normalmente mais contido, interagiu bastante, convidou o público para cantar junto, pediu para que levantassem os braços e até improvisou algumas letras, como em Vital E Sua Moto, em que cantou “Os Paralamas do Sucesso iam tentar tocar na capital… do Rio Grande do Sul” e em Óculos, “Em cima dessas rodas também bate um coração”.
Praticamente todos os álbuns da banda foram visitados. Na metade do show, quatro canções foram apresentadas em formato acústico. Além das músicas próprias, eles tocaram O Vencedor, do Los Hermanos e, no bis, Sonífera Ilha, dos parceiros do Titãs. O público vibrava a cada acorde. Em Romance Ideal, olhei para o lado e vi uma menina emocionada. Tenho certeza que ela não foi a única. O trio sempre conseguiu tocar as pessoas de maneira especial.
Além de Hebert (voz e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (vocais e bateria), que dispensam comentários, vale mencionar os músicos de apoio, João Fera nos vocais e teclados, Eduardo Lyra na percussão, e a fantástica dupla dos sopros, Monteiro Júnior no sax, e Bidu Cordeiro no trombone. Os cinco trabalham juntos há vários anos, o que explica a sintonia no palco. O que não estava muito em sintonia era o cenário, que seria mudado na parte acústica do show e se desprendeu antes do tempo, nem a bateria de João, que rasgou. Mas nada disso conseguiu estragar o espetáculo que conquistou o Prêmio VMB de melhor show do ano. Show esse que pode voltar para cá antes do que esprávamos, pois o Barone anunciou que Porto Alegre é uma das cidades candidatas para a gravação do novo DVD do trio. Agora é esperar que os Paralamas voltem a tocar na capital…
O CD e DVD "Autorretrato" tem produção de Paul Ralphes
A “estreia mundial” de Autorretrato, novo álbum de Kleiton & Kledir, aconteceu dia 26 de agosto no Teatro do Bourbon Country. Depois de 12 anos sem lançar um disco de inéditas, os irmãos Ramil apresentaram canções inspiradas na amizade e na infância, como Autorretrato e Pelotas.
Eles começaram a carreira musical em 1975, nos Almondegas, banda que durou até 78. Em 1980, lançaram o primeiro álbum como dupla. A sua contribuição para a cultura da Capital foi oficialmente reconhecida em 2007, quando Kleiton e Kledir foram agraciados com o título honorífico de Cidadãos de Porto Alegre.
O show teve algumas falhas típicas de início de turnê, como o desentrosamento dos músicos, mas nada que atrapalhasse o espetáculo. A dupla contornou os erros de maneira descontraída e fazendo brincadeiras. Um dos caras que não estava no palco, mas merece aplausos é o técnico de P.A., que incluiu efeitos muito interessantes nas músicas. Além das novas canções, os irmãos apresentaram alguns sucessos incluídos no álbum anterior, Kleiton e Kledir Ao Vivo.
Como de custume, eles contaram histórias do passado. Antes de Vento Negro, um dos maiores sucessos dos Almôndegas, brincaram: “Naquele tempo, a gente sonhava tanto, que sonhava até em ser prefeito de Porto Alegre”, fazendo referência ao prefeito José Fogaça, que compôs a letra da canção. Outro momento clássico do show de Kleiton e Kledir é o duelo de hinos da dupla grenal. Isso aconteceu depois que Kledir anunciou que foi convidado a ser cônsul do Inter.
A platéia, pôde-se perceber, não estava ali para ouvir as novas canções. O que as pessoas queriam mesmo eram os clássicos, como Paixão, Vira Virou, Fonte da Saudade e Maria Fumaça. E, principalmente, o que todos queriam fazer era cantar em alto e bom som “deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau”!
“Ninguém é perfeito.” Essa foi a primeira frase que veio a minha cabeça quando terminou o show do Chuck Berry. A apresentação teria sido impecável se não fosse um pequeno “detalhe”: o músico entrou no palco do Teatro do Bourbon Country às 21h e saiu às 22h. Uma hora de show apenas. Sei que ele não tem mais o pique de antes, já está com 83 anos. Mas só uma horinha de show??? Ele nem parecia cansado. Pelo contrário. Até chegou a ensaiar umas coreografias e fez seu tradicional passinho com a guitarra.
Apesar de tudo, a noite foi maravilhosa. Só o fato de ver, ao vivo, um dos pais do rock já era de tirar o fôlego. Mas, além disso, o show foi fabuloso. Chuck parecia estar no ensaio, tão descontraído que estava. Ele imrpovisou bastante, cantou músicas que a plateia pediu, puxou uma canção em espanhol, com a dedicatória “essa é para vocês”. Se ele realmente achou que no Brasil se fala espanhol eu não sei, mas valeu o esforço. Ele até esqueceu da letra de uma canção e justificou o erro com humor: “Eu tenho mais de 200 músicas, não consigo lembrar de todas”. Quanto à guitarra, não é necessário nem comentar. Afinal, eu estou falando de Chuck Berry, não estou?
No final da apresentação, o músico chamou algumas gurias para subir ao palco. Elas ficaram ali, sem saber o que fazer, enquanto ele tocava. Ao sair do palco, deixou o público com um gostinho de quero mais. Tanto que a maioria das pessoas só arredou o pé do teatro quando os seguranças pediram pra elas saírem. Ninguém sabia o que estava acontecendo, pois ele terminou o show sem dizer nada, nem “bye”, nem “thank you”, nem nada.
Mas passada a decepção daqueles que esperavam assistir um bis, todos se deram conta de que haviam acabado de assistir o show de um dos maiores nomes do rock’n'roll. E uma hora só disso é bem melhor do que nada.
Não sou grande fã do Roberto Carlos. Nunca fui. Mas respeito o Rei. 50 anos de carreira não é para qualquer um. Minha banda preferida tem metade disso e eu já acho o máximo. Tudo bem que faz alguns anos que Roberto não grava um disco de inéditas. Mas também, o cara já lançou mais de 60 discos no Brasil e centenas no exterior. Tudo bem que ele usa um teleprompter para ler a letra das músicas. Mas ele já gravou mais de 500 canções. Tudo bem que show dele já virou sinônimo de TV sintonizada na Globo na noite de natal. Mas o cara tem 68 anos. Apenas um punhado de músicos continuam tocando nessa idade. E nesse ritmo. Foram 5 noites em Porto Alegre. Daqui ele seguiu pra São Paulo, onde vai fazer uma série de 10 shows. São 15 shows em 22 dias!!! Conto nos dedos quem aguenta uma agenda dessas.
Dia 18 de agosto foi a última das cinco apresentações que Roberto fez em Porto Alegre. O Gigantinho, apesar de não possuir qualidade de som, é sempre a casa do rei quando ele vem à Capital. No palco, foi acompanhado por uma banda comandada pelo maestro Eduardo Lages e por alguns músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre . Como todo bom gaúcho, o público enlouqueceu quando Roberto anunciou a OSPA no fim do show.
Um dos grandes méritos da apresentação foram as luzes. Totalmente sincronizadas com a música, elas criaram a atmosfera perfeita para o espetáculo. O operador deu um show a parte. Em determinados momentos, vibrava com o jogo de luz com a mesma intensidade que um guitarrista vibra durante um solo. Muito bonito mesmo.
A interpretação de Roberto não foi muito diferente daquelas que se vê na televisão. As mesmas músicas, as mesmas histórias e até as mesmas piadas. Mas ninguém ali estava se importando com isso. Afinal, Vossa Majestade estava presente. No violão, ele tocou Detalhes. E quando cantou as primeiras palavras de Emoções, a mulherada que estava sentada na pista correu para a frente do palco. Foi então que Roberto começou o tradicional ritual de entregar rosas à plateia. Mas foram flores demais. Ele ficou cerca de dez minutos distribuindo as 15 dúzias de rosas, enquanto a banda tocava ao fundo. Essa quantidade imensa tira o gostinho da exclusividade de receber uma rosa do Rei. E pra quem não está próximo ao palco, aquilo tudo fica monótono.
Mas, no fundo, no fundo, nada disso importa. Porque quem foi ao Gigantinho em qualquer uma das cinco apresentações pôde prestigiar o maior artista brasileiro de todos os tempos.
A apresentação era esperada desde março pelos fãs e pelos músicos. O 4º Festival de Inverno de Porto Alegre foi a oportunidade perfeita para que ela acontecesse. Eu estava particularmente feliz. No dia 27 de julho, veria a banda do meu coração tocando as músicas da melhor banda do mundo. “Nenhum Toca Beatles” foi um show que nem nos meus melhores sonhos eu imaginei que aconteceria.
Com o Teatro do Bourbon Country lotado, os gaúchos do Nenhum de Nós mostraram que sabem mesmo o que fazem. O repertório, ensaiado exaustivamente, incluiu sucessos e canções nem tão conhecidas do grupo britânico. As luzes desenhadas por André Domingues e o cenário feito pela Casa Rima ajudaram a criar o clima ideal para o espetáculo. A banda até pensou em um figurino estilo beatle para a apresentação. Tudo estava maravilhoso. O nervosismo dos músicos só aumentou a sensação de que aquela seria uma noite especial. E foi. Não foi um show perfeito. Foi um show sincero. Uma homenagem verdadeira de verdadeiros fãs do quarteto de Liverpool.
A banda parecia apreciar cada momento em cima do palco. Contudo, a desconfiança era mútua. O público não fazia ideia do que a banda iria “aprontar” e a banda não sabia a reação do público. Acredito que ambos se surpreenderam. O começo animado com A Hard Day’s Night e Can’t By Me Love quebrou o gelo. No meio do show, em With A Little Help From My Friends, eles usaram um recurso que agradou a platéia na hora: a voz dos próprios Beatles inseridas no meio da interpretação do Nenhum. No bis, a maior surpresa da noite: Sady Homrich, o baterista, cantou Yellow Submarine. Ele engrossou a voz e marcou o ritmo com o bumbo, lembrando a cena de um pirata com um barril de rum. Hilário!
Depois do espetáculo, o vocalista Thedy Corrêa admitiu que a emoção o impediu de alcançar algumas notas e de acertar a letra de algumas canções. Mas sua interpretação foi impecável. “Música com alma”, como ele costuma dizer. Além disso, assumiu o megafone em Lucy In The Sky With Diamonts e tocou viola caipira pela primeira vez em público. Veco Marques, guitarrista e fã confesso do Fab Four, encarnou George Harrison e tocou guitarra, violão, sitar e ukulele com maestria. O guitarrista Carlos Stein fez apenas um solo, o de While My Guitar Gently Weeps, originalmente gravado por Eric Clapton, mas esse único solo foi magnífico. Como em todos os shows do Nenhum, ele se deixou levar pela música, vibrava e cantava enquanto tocava guitarra, slide guitar ou violão. João Vicenti é um dos grandes responsáveis por deixar qualquer música com a cara do Nenhum de Nós. Com seu acordeom, teclado e meia-lua, o gaiteiro sempre deixa sua marca. Quando ele e Veco se juntam para tocar, então, a coisa fica séria. O duo “Doblevê” fez um pupurri instrumental de arrepiar. Definitivamente, um dos momentos mais emocionantes do show. O baixo e o violão de Estevão Camargo, músico convidado da banda, chamou a atenção de todos.
“Nenhum Toca Beatles” não deve ser um espetáculo de uma só noite. Eu realmente espero outras doses, para ver e ouvir as musicas da melhor banda do mundo interpretadas pela banda do meu coração. É pedir demais?
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Leia o relato de Thedy Corrêa sobre o show no blog Astro.Thedy e os comentários de Martha Medeiros no blog dela.
Uma das vantagens de morar no Rio Grande do Sul é o grande intercâmbio que acontece com os países da América Latina, especialmente no campo da música. No dia 29 de julho, Porto Alegre pôde prestigiar, dentro da programação do 4º Festival de Inverno, o show do No Te Va Gustar, uma das maiores bandas do rock uruguaio.
Também vindo do Uruguai, Frederico Lima, o Socio, foi convidado a abrir aquela noite no Bar Opinião. Apesar de não conhecer a maioria de suas canções, o público foi muito receptivo com o músico, que tocou pela terceira vez nos palcos gaúchos. Junto com ele, na banda de apoio, estavam Checo, no baixo, e Gonzalo Castex, na bateria. Sua obra é um hibrido de vários estilos e para auxiliá-lo nos efeitos das músicas, ele faz uso de um computador. No meio do show, uma surpresa: para dividir os vocais de El Capitán, ele chamou Thedy Corrêa, vocalista da banda Nenhum de Nós.
Apesar de não ser a atração principal daquela noite, Socio causou uma ótima impressão no público. Com certeza, essa não foi a última vez que Frederico Lima encantou os porto-alegrenses.
Empolgada pelo show que assistiu, a platéia recebeu o No Te Va Gustar com entusiasmo. Essa também foi a terceira vez que eles tocaram na Capital. Agora, a banda formada por Emiliano Brancciari, Gonzalo Castex, Martín Gil, Denis Ramos, Mauricio Ortiz, Marcel Curuchet, Guzmán Silveira e Diego Bartaburu veio divulgar o quinto disco de sua carreira, El Camino Más Largo. O único CD do grupo lançado no Brasil é um compilado de seus dois primeiros álbuns. Mesmo assim, o pessoal que assistia ao show cantou a maioria das músicas, que são uma mistura de rock, reggae e diversos outros estilos. Thedy Corrêa foi novamente convidado a subir no palco, dessa vez para cantar Clara.
A banda fez uma excelente apresentação e, assim, provou que o rock uruguaio (e, por extensão, o rock latino) vai muito bem, obrigado.
Logo na chegada ao Teatro do Bourbon Country, uma detalhe chama a atenção: o cenário do palco, uma espécie de colcha de retalhos, é tão visceral quanto a arte (e toda a concepção) do CD. Nando Reis estava animado, muito animado. Durante as duas horas de show, ele passeou pelas várias fases de sua carreira. Do seu novo disco, Drês, ele apresentoumúsicas como Mosaico Abstrato e Hi, Dri. Da sua época de Titãs, tocou Os Cegos do Castelo e Marvin. Cantou também composições feitas em parceria, como Onde Você Mora, dele e de Marisa Monte, e outras clássicas de seu repertório, dentre elas All Star e Do Seu Lado.
No telão, os vídeos projetados conversavam diretamente com as músicas. No bloco de canções em homenagem aos filhos, desenhos infantis traduziam O Mundo é Bão, Sebastião, flores ilustravam Só pra So, e imagens de árvores eram reproduzidas enquanto Nando cantava Espatódea, dedicada à filha Zoe, que estava nos bastidores. Ainda no “momento família”, fotografias de sua mãe eram exibidas durante a música Conta. Além disso, cenários urbanos, elementos do encarte do CD e recortes de lista telefônica compunham os vídeos.
Junto com a banda Os Infernais, Nando veio dessa vez com o som mais pesado. Até as canções mais leves, como O Segundo Sol, ganharam reforço nas guitarras, baixo e bateria. Aliás, Carlos Pontual (guitarras), Alex Veley (teclados), Felipe Cambraia (contrabaixo), Diogo Gameiro (bateria) e Juju Gomes (backing vocals) foram peças importantíssimas do show que encantou o público porto-alegrense.
Quando criei esse blog, a ideia era postar apenas textos que fiz/faço/farei para a faculdade. Mas agora, depois do show fantástico do Jorge Drexler, mudei meus planos. A partir de hoje, vou tentar escrever sobre todos os shows que eu for. Ou sobre aqueles que valem a pena, pelo menos. Isso não é uma promessa, porque diciplina não é meu forte. Anyway, vale a tentativa…
O uruguaio entrou no palco do Teatro do Bourbon Country correndo, de terno e All-Star. E com um sorriso no rosto, sempre com um sorriso no rosto. O público, que lotou o Teatro do Bourbon Country, o recebeu com muito entusiasmo. Ao primeiro acorde de Jorge Drexler no violão, todos foram hipnotizados. A voz macia e o toque delicado no instrumento encantaram a platéia do início ao fim do espetáculo. Com seu bom-humor e simplicidade característicos, o músico agradeceu a presença de todos novamente em seu show. Salientou que não costuma tocar duas vezes em uma cidade durante a mesma turnê, e muito menos com dois shows de cada vez. Ano passado ele foi uma das atrações do Festival de Inverno, e a procura pelo show foi tão grande que a organização negociou uma sessão extra, assim como aconteceu dessa vez. Como o preço dos ingressos do ano passado era bem mais barato, ele brincou: “Obrigado também pelo sacrifício econômico em tempos tão difíceis.”
Sozinho no palco, acompanhado apenas de seu violão e sua guitarra, Drexler estava super descontraído, conversou muito e atendeu alguns pedidos do público. Um gesto de agradecimento, segundo ele. Salvapantallas, escrita para seu irmão Daniel Drexler, foi uma das escolhidas. Depois, tocou um pedido dele mesmo, “O Astronauta Lírico”, do amigo Vitor Ramil, que estava na platéia. O público insistiu que o gaúcho subisse ao palco para cantar junto, mas Drexler, com seu jogo de cintura, disse que Vitor estava ali “como civil, descansando”.
Acompanham Drexler nessa turnê os engenheiros de som Carlos “Campi” Campón e Matías Cella. Além de subir no palco para tocar instrumentos, no mínimo, excêntricos, eles fazem um belíssimo trabalho de música eletrônica. Usam samplers de sons captados nos mais diversos lugares e os inserem nas músicas. Essa é uma das principais marcas do álbum Cara B.
Um dos grandes méritos de Drexler é a experimentação que ele faz ao vivo. Às vezes canta sem microfone, às vezes toca sentado no chão. Além de suas composições, também canta o italiano Luigi Tenco, o brasileiro Arnaldo Antunes, o canadense Leonard Cohen. Improviso é a palavra chave. No bis, por exemplo, tocou uma canção que compôs há três dias, no Rio de Janeiro, em homenagem ao amigo Paulinho Moska. Esse foi o último show da turnê “Cara B”, que durou dois anos. Ao final do show, ele cantou Stay, de Mauricie Williamns. O trecho “Why don’t you stay just a little bit longer?” parecia refletir o sentimento do público que assistiu por duas horas um dos maiores nomes da música latina atual.
Com 17 livros publicados, seis deles também lançados no exterior, Luiz Antonio de Assis Brasil é um dos mais importantes autores brasileiros. Nascido na capital gaúcha em 21 de junho de 1945, formou-se em Direito e possui título de Doutor em Letras. Em 1976, escreveu sua primeira obra, Um quarto de légua em quadro, que recebeu o Prêmio Ilha de Laytano. Além de romancista, também é professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). “O melhor momento da vida acadêmica é quando se está dando aula. Eu sinto que ali estou realizando uma coisa realmente útil. Mesmo se pudesse viver só de literatura, eu nunca deixaria de ensinar”, confessa ele.
Admite que sempre foi um bom aluno e que o interesse pelos livros começou desde muito pequeno: “fui mesmo um leitor precoce”. No Colégio Anchieta estudou latim, filosofia e os clássicos da literatura. “O que devo aos padres jesuítas é inestimável”. Suas influências estão, em sua maioria, situadas no realismo europeu, mas o principal responsável pela sua paixão pelo mundo literário foi Eça De Queiroz. Ao analisar os índices de leitura do Brasil, lamenta: “uma das grandes perdas que nós tivemos foi não darem literatura internacional no ensino médio”.
Passou a freqüentar aulas de violoncelo em 1962. Interessado, começou a pesquisar sobre a história da música e hoje possui um grande conhecimento sobre o assunto. Ele conta que sua participação na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, entre 1975 e 1990, foi uma grande experiência. Lá conheceu “um dos ambientes mais neuróticos que existem”, pois os músicos concorrem entre si em busca de postos melhores. Dessa época saiu a inspiração de O homem amoroso, seu 6º romance. Além disso, a música dá sonoridade para suas frases e é tema de livros como O Concerto Campestre e Música Perdida.
Quando perguntado se seus romances podem ser considerados regionalistas, responde com humor: “Eu situo minhas histórias no Rio Grande do Sul porque não poderia situar no Piauí”. Ao contrário de escritores pessimistas, ele acredita que “o romance está cada vez mais vivo, mas está se transformando.” Segundo Assis Brasil, talvez a sua sobrevivência se deva justamente a essas adaptações.
Seu contato com novos autores é intenso devido à Oficina de Criação Literária que ministra na PUCRS desde 1985 para estudantes da pós-graduação. O professor afirma que o curso apenas abrevia algumas etapas e dá possibilidade de diálogo do autor com outras pessoas. “Para ser escritor, é preciso ter essa coisa inexplicável que se chama talento e muito conhecimento da tradição literária”. Ele não tem uma fórmula mágica da literatura, mas acredita que para escrever bem é preciso “achar a medida da história”.
Seu processo de criação é baseado no planejamento prévio da obra: “Não sei começar um livro sem saber como ele termina. O romance precisa ter uma relação de causa e efeito entre os episódios”. Para melhorar o resultado final, o gaúcho conta com a ajuda de Valesca de Assis, sua esposa há 40 anos, também escritora. “Confio muito no senso crítico que ela tem”. Por isso, Valesca é a primeira pessoa para quem entrega seus manuscritos. O contrário não acontece: “Eu não sei avaliar as obras dela. Quando ela escreve uma palavra, sei exatamente o conceito que tem sobre isso. Isso interfere na minha leitura”.
Atualmente, está fazendo a reunião dos textos escritos para o jornal Zero Hora, que farão parte do livro Palavras, ao mesmo tempo em que trabalha na história da PUCRS. Assis Brasil declara que agora está se colocando prazos. Ao final desse projeto, pretende retomar o romance que já tem cerca de 50 páginas e está previsto para 2010.